Projetos Acadêmicos

Projeto: Do Hospício de Pedro II ao Hospital Nacional de Alienados: 100 anos de história (1841-1944)

Este projeto teve o intuito de construir um programa coletivo de pesquisas históricas e de preservação documental em torno do tema da loucura e da psiquiatria no Rio de Janeiro. Mais especificamente, dedicou-se à história do Hospital Nacional de Alienados (HNA), entre os anos de 1841 a 1944.

Buscou-se compreender o modo como a história institucional do HNA se articulou à história das ciências médicas relativas ao “mental” e às práticas terapêuticas a elas correlatas, bem como às intervenções nas esferas físico-orgânicas e morais-psicológicas de sujeitos e populações a elas vinculadas. Junto ao trabalho intelectual e analítico, que usou fontes primárias originais, organizou-se também uma base de dados virtuais com essas fontes, integrando o fundo do HNA sob a guarda das quatro instituições herdeiras: o IPUB (UFRJ); o IMASNS (SMS-RJ), o IMASJM (SMS-RJ) e o Museu Penitenciário (SEAP-RJ).

A iniciativa vem contribuindo para o desenvolvimento da história da medicina mental através de pesquisas acadêmicas originais e por meio da preservação de documentos, que, além de garantir maior longevidade aos arquivos pertencentes ao Fundo HNA, amplia o acesso aos documentos nele contidos, obedecendo a critérios de agências de fomentos internacionais que vêm invocando a política de abertura de dados em prol da multiplicação de pesquisas na área.

Confira aqui o Resumo do Projeto do Hospício de Pedro II ao Hospital Nacional de Alienados: 100 anos de história (1841-1944) . 


RELATÓRIO  DO PROJETO  –   JUNHO DE 2019

Todo trabalho de história, feito por historiadores ou estudiosos de várias áreas do das chamadas ciências humanas, utiliza como matéria prima as chamadas fontes históricas, ou seja, todos os testemunhos de períodos passados, sejam eles escritos, imagens, objetos, depoimentos orais, etc. Isso porque se entende que só é possível falar de momentos que já passaram a partir do máximo possível de resquícios destes tempos. Assim, estudam-se estes testemunhos do passado com o objetivo de se chegar a alguma interpretação do que aconteceu em outros tempos e lugares.
Os historiadores e demais pesquisadores envolvidos na pesquisa “Do Hospício de Pedro II ao Hospital Nacional de Alienados: cem anos de histórias (1841-1944)” fizeram, ao longo destes últimos três anos, todos os esforços possíveis para encontrar resquícios e evidências que revelassem algo de como era a vida de pessoas consideradas loucas no passado da cidade do Rio Janeiro. Buscamos entender como estas pessoas consideradas “loucas”, homens e mulheres das mais variadas classes sociais, vistos como doentes mentais pela medicina, pela polícia, pela justiça e pela opinião pública, eram tratadas numa instituição muito emblemática e que foi criada poucos anos depois do Brasil se tornar um país independente: o Hospício de Pedro II, depois chamado de Hospital Nacional de Alienados. Hoje em dia, a sua construção, patrimônio arquitetônico, abriga parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Urca, Zona Sul do Rio de Janeiro.
Foram encontrados, organizados, higienizados e descritos muitos documentos de pacientes, desde o século XIX até meados do século XX. Chamamos esta documentação de documentação clínica. A partir dela sabemos nome, raça, idade, sexo, motivo da internação, diagnóstico, tratamento, destinação, descrição de fatos da vida e do adoecimento, histórico familiar e muitas outras informações que nos permitiram reconstruir, ao menos parcialmente, a experiência desses indivíduos. Para reunir o conjunto destas fontes, que hoje em dia estão espalhadas por vários lugares do Rio de Janeiro, criamos uma base de dados on-line que reúne informações básicas sobre estes testemunhos. Além disso, para estimular o interesse no assunto, criamos também uma Biblioteca Virtual sobre o tema, com várias informações: sobre os médicos, vídeos sobre a loucura e a doença mental, bibliografia, etc. Prevemos também incluir nela projetos de outros lugares do país e sobre outras instituições.
Muito do que se investigou na pesquisa foi publicado em artigos, livros, apresentados em congressos e conferências. Ao longo da pesquisa, descobriu-se muita coisa. Vejamos algumas coisas muito interessantes que nosso projeto desvendou.
O Hospício de Pedro II, na época do Brasil Imperial, abrigou, por exemplo, muitos escravos, ex-escravos e libertos. Nessa época, não era tão fácil para uma família conseguir uma vaga na instituição, mesmo sendo ela uma pública e da caridade. Percebeu-se que a chamada medicina mental, a área da medicina que tratava da loucura, ao longo destes cem anos de história, não tinha normas e padrões únicos para definir as pessoas tidas por doentes mentais. Porém, os alienistas e psiquiatras, os médicos que se dedicaram a esta especialidade, desenvolveram várias teorias, práticas, técnicas e reflexões para explicar a loucura, escrevendo muitos textos, livros e organizando revistas. Muitos conhecimentos foram disseminados do Hospício para outros lugares e instituições parecidas do país, e chegando à sociedade como um todo.
A pesquisa também apontou que por muito tempo, até pelo menos o início do século XX, essa medicina mental não foi o saber mais importante da instituição. O Hospício serviu também para excluir do convívio social pessoas com comportamento indesejado, além de órfãos da Santa Casa, mas também serviu igualmente como um lugar de tratamento, cuidado, assistência de pessoas com sofrimento e com doenças não só mentais, mas também infecciosas. Seus representantes, tanto alienistas e psiquiatras, mas também enfermeiros, irmãs religiosas, professores e outros profissionais, efetivaram vários esforços para tratar os pacientes que ali adentraram.
Ficamos sabendo, entre outras coisas, que muitos indivíduos cometedores de crimes acabaram sendo mandados para a instituição que, então, criou uma seção específica para “loucos criminosos”. Tudo isso contribuiu para criar uma imagem, muito presente na nossa sociedade até hoje, de que pessoas com sofrimento mental são perigosas e necessariamente violentas, o que não é verdade. Provou-se, de forma muito evidente, ao longo destes estudos, a partir dos testemunhos encontrados, que o que era considerado loucura há cento e cinquenta ou cem anos atrás não é necessariamente considerado loucura hoje. Por exemplo, mulheres que queriam divórcio, ou mesmo que não aceitavam ser mães ou queriam somente estudar, muitas vezes acabavam indo parar no Hospício Nacional, encaminhadas por seus maridos, namorados e familiares.
A equipe dessa pesquisa se dedicou a essa empreitada porque considera fundamental preservar as várias memórias destas pessoas e da instituição que as abrigou e divulgar conhecimentos históricos, estimulando novas pesquisas. Como estudiosos da sociedade e da vida humana, do passado e do presente, acreditamos que é fundamental dar um sentido para o que aconteceu e para a vivência dessas pessoas. Isso ajudará a lutar por uma visão e um tratamento mais dignificante para indivíduos consideradas doentes mentais, para que elas sejam vistas como sujeitos, cidadãos com direitos, autonomia e controle sobre suas próprias vidas. As pessoas consideradas loucas no passado não cairão no esquecimento.

Acesse aqui o Relatório Parcial do Projeto – até junho de 2019 – e conheça os objetivos alcançados e as respectivas contribuições para a área do conhecimento, para inovação de produtos, processos ou políticas públicas, para a formação de recursos humanos, entre outras.


PRODUÇÃO BIBLIOGRÁFICA:

Conheça toda a produção científica do projeto de pesquisa – artigos, capítulos de livros e livros publicados – disponível para consulta ou para compra.


ATIVIDADES ACADÊMICAS:

  1. Disciplina História da Psiquiatria e Diversidade no Brasil:

No segundo semestre de 2020, o Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC) ofereceu a Disciplina História da Psiquiatria e Diversidade no Brasil, ministrada pelos professores Cristiana Facchinetti, Eliza Toledo e Flavio Edler.

A disciplina teve como objetivo apresentar, discutir e problematizar modos de fazer história da psiquiatria no Brasil, com ênfase nas apropriações do saber psiquiátrico nos diferentes contextos histórico-culturais. Buscando avançar no terreno da diversidade e permitir angariar maior historicidade acerca das instituições psiquiátricas e de seus pacientes, a disciplina buscou estabelecer uma abordagem que considerasse as interseções entre o particular das instituições e os atravessamentos das categorias de gênero e/ou raça na história das práticas médico-psicológicas. Com o fito de ampliar a percepção dessa diversidade, foram convidados professores de diferentes instituições do país, com diferentes formações, para participar da disciplina.

Confira aqui a ementa do curso.

Como trabalho de conclusão do curso,  foi proposto aos alunos a produção de um podcast ou vídeo sobre o seu projeto de pesquisa articulando-o com a bibliografia de pelo menos uma das 15 aulas (5 a 10 min) ou um texto (6 a 8 laudas em Word, Times New Roman, espaçamento 1,5, margens 2 cm).

Abaixo publicamos alguns trabalhos apresentados:

Vídeo:  “Distopias Travestis: Subjetividades, Anormalidade e Psiquiatria ”.
Autoria: Paulo Vitor Guedes de Souza. Edição: Rebeca Gonçalves dos Santos. 13′ e 13″.

Podcast:  “Do Arquivo a Cena Perfomativa: fragmento da loucura”.

Autora: Jamila Nascimento Pontes. 9’53”.

Podcast:  “Metendo a Colher”.

Autora: Carolina Valente. 11’ 53”.